Shayra Mana Josi fala sobre a poesia feminina na Arena Multivozes


Feminismo, negritude, periferia, hip-hop e poesia. Essas foram as palavras-chave da palestra “Literatura Periférica: vozes femininas na poesia em Belém do Pará”, ministrada pela poeta e rapper Shayra Mana Josy na tarde deste domingo (1), dia dedicado às vozes urbanas na 23ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, que chega ao fim após uma jornada de 9 dias de programação.

Shayra lembrou a sua militância de 21 anos no movimento hip-hop e o nascimento do coletivo “Slam Dandaras do Norte”, que surgiu em 2017 com o intuito de reunir mulheres que desejassem escrever poesias ou “tirar da gaveta” as suas produções.

“Achamos que seria mais difícil reunir mulheres que fizessem poesia porque ainda há grande preconceito e silenciamento das mulheres no movimento hip-hop. A poesia se tornou o caminho mais viável”, contou.

Nesse caminho, as mulheres do coletivo também cruzaram com o projeto “Leia Mulheres de Belém”, de Carol Magno, que realiza uma espécie de antologia das produções femininas em Belém. O movimento das “Dandaras” cresceu e chegou a ser convidado para mostrar sua experiência inclusive em outros Estados.

“A nossa poética ainda incomoda, mesmo que estejamos trabalhando ela em espaços específicos que são nossos. Porque a sociedade e o machismo não querem que estejamos lá. Por isso, o coletivo é fechado para mulheres. É um espaço de fortalecimento e, se preciso, vai para o enfrentamento”, pontuou Shayra.  

Entre os temas tratados nas produções do coletivo, estão questões como machismo, racismo, violência doméstica e a vida na periferia de Belém. No meio desse trabalho junto ao grupo, Shayra conseguiu, por meios próprios, lançar o seu primeiro livro autoral – Po Eu Sia – lançado em novembro do ano passado e que já teve textos aproveitados em escolas e até faculdades do Estado.

“É muito legal quando alguém te reconhece como escritora, poeta. É um lugar que a gente imagina que nunca vai chegar”, frisou.

A psicóloga Ana Silva foi uma das mulheres que abraçaram o coletivo como esse espaço de fala e de encontro do próprio "eu". Ela passou a escrever mais a partir da experiência com as “Dandaras”. “Hoje digo que sou poeta porque é assim que eu me sinto. A mulher, por si só, é uma poesia. E, a partir do momento em que a gente fala e escreve, a gente se torna escritor, poeta. Me sinto muito mais completa hoje”, enfatizou.

A escritora Eliana Barriga acompanhou a palestra e parabenizou Shayra e o coletivo das “Dandaras” pelo trabalho. “Também sou escritora e sei das dificuldades que a gente enfrenta para ter espaço e fazer essa produção chegar às pessoas. Feliz de ver as mulheres chegando e ocupando todos os lugares”, pontuou.

Serviço:

A 23ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes foi uma ação do Governo do Pará por meio da Secretaria de Cultura (Secult) que aconteceu entre 24/08 e 01/09 no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. O evento esteve aberto para visitação entre 10h e 21h com entrada franca.

Texto: Elck Oliveira
Fotos: Maycon Nunes